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Trabalho, arte e glitter: carnaval impulsiona vendas de pequenos empreendedores em SP

Bruno Sunga, fundador da Sungolé, também é arquiteto, "marido de aluguel e vende bolos. Acervo pessoal/Bruno Sunga Com a alta demanda por itens de festa e se...

Trabalho, arte e glitter: carnaval impulsiona vendas de pequenos empreendedores em SP
Trabalho, arte e glitter: carnaval impulsiona vendas de pequenos empreendedores em SP (Foto: Reprodução)

Bruno Sunga, fundador da Sungolé, também é arquiteto, "marido de aluguel e vende bolos. Acervo pessoal/Bruno Sunga Com a alta demanda por itens de festa e serviços, o carnaval se tornou uma oportunidade para microempreendedores lucrarem, além de ser, também, uma opção de renda extra para quem tem emprego fixo. Os produtos vendidos pelos pequenos empresários vão desde tiaras e plaquinhas para usar nos blocos a doces alcoólicos caseiros. Há pessoas que até se aventuram na máquina de costura e nas misturas de tecidos coloridos, lantejoulas e glitter. Bruno Spinardi, de 36 anos, também conhecido como Sunga, é um desses microempreendedores. Além de arquiteto, é fundador da Sungolé. A empresa vende uma versão alcoólica do doce de verão com nome que varia conforme a cidade: geladinho, sacolé ou chup-chup. Blocos fazem ensaios e shows pra afinar detalhes e fazer caixa para o carnaval de rua de SP Tudo começou em 2015 com uma brincadeira entre amigos a fim de "fazer uma grana extra" para curtir o carnaval em outro estado. "A gente queria ir ao Rio de Janeiro, mas estávamos 'duros'. Então surgiu a ideia: vamos fazer geladinho em casa e vender nos blocos", contou Bruno ao g1. "Fizemos isso em cinco finais de semana seguidos, e deu certo!" O projeto se repetiu nos anos seguintes, e outras pessoas quiseram participar, tornando-se revendedoras. Hoje, a produção dos produtos da Sungolé é feita em uma fábrica. Os revendedores compram as unidades que desejam vender por valor de atacado e ficam responsáveis pelo armazenamento e pelas vendas. No ano passado, a Sungolé vendeu cerca de 40 mil geladinhos com uma equipe de quase 20 revendedores. "Temos pessoas que vendem entre 3.000 e 4.000 unidades nos blocos de pré-carnaval, carnaval e pós-carnaval. A média é mais ou menos mil unidades vendidas por pessoa", diz Bruno. Os preços de venda recomendados pela Sungolé é uma unidade por R$ 8 e três por R$ 20. Acervo pessoal/Lígia Godoy Para os próximos anos, as metas são continuar a fomentar o carnaval de rua e entrar no setor de moda carnavalesca a partir da venda de maiôs e viseiras da marca. Ele estima que haverá ao menos 25 vendedores do Sungolé nas ruas neste ano. As cidades que vão receber os isopores da empresa são São Paulo, Florianópolis e Rio de Janeiro. Bruno explica que ganhar uma renda extra é a principal motivação das pessoas para se juntarem à Sungolé. "Os revendedores dizem que precisam pagar dividas ou que são tímidas, e as vendas de geladinhos ajudam a se soltar, 'trocar ideias' com outros foliões e ganharem dinheiro." Lucro de R$ 2 mil com geladinhos A advogada Lígia Godoy, de 30 anos, é uma das revendedoras do projeto desde 2025. Durante uma conversa com Bruno, o empresário disse a ela que ser um revendedor é "uma opção muito legal para fazer uma renda extra". Lígia topou. "Além de ganhar uma renda extra, para mim, foi muito divertido, porque eu conheci muita gente, fiz muitas amizades em blocos. Eu gosto bastante", disse, em entrevista ao g1. Ela contou também que, em 2025, lucrou quase R$ 2 mil com vendas no carnaval. A advogada, que usou o dinheiro para viajar, tinha comprado 1.200 geladinhos para revender. Lígia Godoy e Bruno Sunga se conheceram em um bloco de Carnaval. Acervo pessoal/Lígia Godoy Sobre seu emprego fixo, ela conta que escolheu uma profissão que não tem muita relação com a Lígia fora do escritório. "Mas a parte interessante de ser advogada nessas horas da curtição do carnaval é ter conhecimento jurídico para ajudar as pessoas em casos de assédios e outras questões." Brilho e penas Enquanto o carnaval é animado para quem está vendendo geladinhos, "o mercado de arquitetura é parado", diz Fabrício Cervelin, arquiteto autônomo de 46 anos, ao g1. A marca de roupas de Fabrício, a Fabrilhe, surgiu em 2020, depois de ele ter sido demitido do seu antigo emprego. O arquiteto, porém, fazia fantasias de carnaval criança. "É uma paixão antiga, porque o carnaval de rua de Divinolândia acontecia na frente da casa da minha avó. Eu assistia e ficava encantado com aquilo", conta. Fabricio nasceu em Divinolândia, cidade do interior de São Paulo com cerca de 11 mil habitantes. Agora, na capital, ele aproveita a data festiva para fazer uma renda extra vendendo roupas e acessórios artesanais: "É muito importante, é um dinheiro extra maravilhoso". A loja vende bonés, tiaras, colares, bodychains, coletes, shorts e outras roupas e acessórios para serem usados na rua e chamar a atenção nos blocos. As peças mais caras custam R$ 380. Os clientes da Fabrilhe costumam ser amigos de amigos ou pessoas atraídas pelo perfil da marca nas redes sociais. Acervo pessoal/Fabrício Cervellin A marca é praticamente trabalho de um homem só: "eu desenho, crio, produzo, tiro foto, saio na foto, edito, posto. Eu faço tudo, exceto os shorts e os coletes, que são feitos por uma costureira", diz o arquiteto. Para além do retorno financeiro, Fabrício diz que "é gratificante ir aos lugares e ver pessoas usando coisas que eu fiz". Os itens vendidos são feitos de restos de tecidos ou são comprados na internet e no Centro de São Paulo. As penas usadas são verdadeiras, mas ele conta que não envolve sofrimento de pavões, faisões e galinhas do sítio do pai dele: as aves soltam penas naturalmente no verão. Inteligência artificial como ajudante A inteligência artificial é usada na produção e edição de imagens e na criação de textos para as redes sociais e o site da Lucky Charm. Acervo pessoal/Maria Claudia Marrey Depois de trabalhar em várias agências de marketing, a comunicadora social Maria Claudia Marrey, de 43 anos, decidiu fundar sua própria marca, a Lucky Charm Acessórios. Foi em 2018 que ela vendeu a primeira peça feita à mão da marca. Desde então, as datas comemorativas se tornaram um momento para obter dinheiro, principalmente o carnaval. "Eu faço tudo sozinha: desde a escolha dos materiais até a planilha de custos e a organização das encomendas", contou Maria Claudia ao g1. Recentemente, porém, ela teve uma ajuda que considera importante: a da inteligência artificial (IA). Segundo Maria Claudia "as ferramentas de IA foram uma 'mão na roda' para empreendedores autônomos". A piracicabana não está sozinha. Uma pesquisa da plataforma de serviços financeiros InfinitePay revelou que os empreendedores brasileiros usam a IA da empresa principalmente em transações financeiras, controle de caixa, campanhas de marketing e análises para a tomada de decisões. A Lucky Charm vende tiaras, ombreiras, earcuffs (brincos que contornam as orelhas) e viseiras cheios de penas e brilhos para usar nos blocos. Tiaras são os itens mais vendidos. As peças feitas à mão variam entre R$ 89,90 e R$ 400. Mesmo deixando a carreira no marketing de lado, Maria também aplicou as habilidades que obteve na Faculdade Belas Artes em sua marca. "Eu trabalhei em agência de publicidade e atendia muitos clientes, então tenho noção de o que uma empresa precisa para funcionar e entendo de campanhas no Instagram e no Google Ads", diz ela. De acordo com Maria Claudia, o carnaval é a data comemorativa que a marca mais vende. "É uma festa que o Brasil inteiro comemora. Eu recebo pedidos até de gente de fora. Já mandei peças aos Estados Unidos e, neste ano, recebi pedidos de pessoas da Argentina". Com as vendas do período, a comunicadora consegue caixa suficiente para manter a empresa o resto do ano inteiro. *Sob supervisão de Paula Lago e Fernanda Calgaro